Quando a gravidez não acontece como esperado, é comum que a mulher (ou o casal) se pergunte: “Será que é o meu emocional?”
As emoções têm um papel importante durante as tentativas de gravidez, inclusive no andamento dos tratamentos de reprodução assistida. Contudo, é preciso bom senso para discernir o alcance dessa influência, e para não deixar que ela se torne um peso de culpa sobre as pacientes.
Muitas chegam ao consultório depois de terem ouvido que não engravidaram porque não acreditaram o suficiente, porque faltou fé, ou simplesmente porque não conseguiram desencanar, deixar de pensar no assunto e esperar a gravidez acontecer naturalmente. Além de serem inverdades, essas afirmações podem ser cruéis quando ouvidas por tentantes que estão recebendo um resultado negativo atrás do outro, mês após mês.

Os sentimentos, o pensamento positivo e, principalmente, o bem-estar (físico e mental) podem influenciar nas chances de alcançarmos o tão sonhado positivo. Contudo, somente as emoções, de forma isolada, não são suficientes para interferir no que pode ser um diagnóstico de infertilidade.
Uma mulher que está há meses tentando engravidar, de forma intencional, com tentativas suficientes durante o mês, cobrindo o período fértil, não deixa de engravidar por pensamentos ou sentimentos negativos. Há algo aí que precisa ser investigado mais a fundo.
O mesmo vale para quem já tem um diagnóstico de infertilidade, ou doenças que interferem nas chances de engravidar (como endometriose, adenomiose, miomas, entre outras). Nesses casos, é recomendado um acompanhamento especializado em reprodução humana. Pensar positivo ou emanar boas emoções ajuda, mas geralmente não é o suficiente.
A infertilidade precisa ser encarada como qualquer outra doença. Ninguém fala para quem tem problema no coração, pressão alta, diabetes ou qualquer outra doença que ela só precisa pensar positivo, acreditar, que tudo vai passar num passe de mágicas. Por que quando falamos na saúde reprodutiva seria diferente?
Emoções e fertilidade: qual é a relação?
O corpo e a mente estão profundamente conectados. Situações de estresse crônico, ansiedade intensa e sofrimento emocional prolongado podem interferir no funcionamento do organismo como um todo, inclusive no sistema reprodutivo.

Níveis elevados de estresse podem afetar:
- o equilíbrio hormonal;
- a regularidade do ciclo menstrual;
- a qualidade do sono;
- a libido; entre outros.
Pensamento positivo ajuda… mas não faz milagre
Cuidar da saúde emocional é essencial, mas é preciso tomar cuidado com uma armadilha comum: a ideia de que “se você relaxar, engravida” ou que a infertilidade é apenas emocional.
Essa visão, além de simplista, pode gerar ainda mais sofrimento.
Infertilidade é uma condição médica que pode ter causas hormonais, genéticas, anatômicas, inflamatórias ou masculinas — e muitas vezes envolve mais de um fator.
Ou seja:
- pensamento positivo ajuda a enfrentar o tratamento;
- equilíbrio emocional melhora a qualidade de vida;
mas nenhum dos dois substitui diagnóstico, exames e acompanhamento médico.

Bem-estar psicológico como parte do tratamento
Quando falamos em tratamento de fertilidade, o cuidado precisa ser integral. Isso inclui olhar para o emocional com a mesma seriedade que olhamos para os exames.
O acompanhamento psicológico pode ajudar a:
- lidar com a ansiedade durante tentativas e tratamentos;
- atravessar frustrações e resultados inesperados;
- fortalecer o vínculo do casal;
- reduzir a autocobrança excessiva.
Não é sobre “pensar positivo o tempo todo”, mas sobre ter espaço para sentir, falar e ser acolhida durante esse processo.
Tratamento é ciência, cuidado e humanidade
O caminho para a gravidez não deve ser percorrido com culpa, pressão ou silêncio emocional. Cuidar da mente não anula a importância da medicina — e a medicina não deve ignorar o impacto emocional de quem está tentando engravidar.
Quando ciência e acolhimento caminham juntos, o tratamento se torna mais humano, mais respeitoso e mais sustentável para quem vive esse sonho.

Se você está passando por esse processo, saiba: suas emoções importam, e um diagnóstico de infertilidade não é culpa sua.
Dra. Alessandra Daud é ginecologista especializada em reprodução humana e atende na Clínica Gerare, em Palmas (TO). A clínica faz parte do Fertgroup, o maior grupo de reprodução assistida do Brasil.


