Estatística orienta. Mas cada paciente conta uma história diferente.
Quando conversamos sobre fertilização in vitro, usamos números o tempo todo. Aos 40 anos, por exemplo, sabemos que a chance de um blastocisto ser cromossomicamente normal é menor do que em mulheres mais jovens. Esses dados são fundamentais para orientar expectativas.
Mas existe algo que eu sempre faço questão de lembrar: estatística descreve uma população. Ela não determina, sozinha, o resultado de uma pessoa.

Essa paciente começou a tentar engravidar em outubro de 2022. Aos 40 anos, apresentava miomas — sem comprometimento da cavidade endometrial —, endometriose ovariana com endometrioma e adenomiose. O espermograma do parceiro era normal, as tubas eram pérvias e ela apresentava uma boa reserva ovariana.
Iniciamos o tratamento de reprodução assistida em abril de 2025.
No início do ciclo, visualizamos 12 folículos antrais.
Obtivemos 10 óvulos, 9 maduros.
Foram formados 7 embriões.
E os 7 chegaram a blastocisto e puderam ser biopsiados.
Aos 40 anos, estatisticamente poderíamos esperar algo em torno de 2 a 3 embriões euploides nesse grupo. Ela teve 4 embriões euploides.Um resultado acima da média esperada para sua faixa etária.

Antes da transferência, ainda havia outros pontos a cuidar. Optamos por tratar a adenomiose durante três meses e trabalhar também sua saúde metabólica. Com acompanhamento nutricional, ela perdeu 7 kg e melhorou seus parâmetros clínicos e laboratoriais.
Em novembro, iniciamos o preparo endometrial em ciclo natural modificado.
Transferimos um único embrião euploide.
O resultado? Beta-hCG positivo!
No primeiro ultrassom: embrião com 6 semanas e 2 dias e batimentos cardíacos presentes. Depois disso, seguiu para o acompanhamento pré-natal.

Tenho pacientes tentantes aos 40 anos que, infelizmente, após vários blastocistos, não apresentam nenhum embrião euploide. E tenho pacientes, como essa, que conseguem quatro.
Esse caso ilustra muito bem uma das coisas mais importantes da medicina reprodutiva:
A estatística nos ajuda a aconselhar, planejar e estabelecer expectativas realistas.
Mas quem tratamos não é uma estatística. É uma paciente única, com uma história reprodutiva única.
Espero que essa história tenha colocado um pouco de fé e esperança no seu coração.
Com carinho, Dra. Alessandra.
Dra Alessandra Daud é médica ginecologista, especialista em reprodução assistida e fundadora da Clínica Gerare, pertencente ao Fertgroup (o maior grupo de reprodução humana do Brasil).


